segunda-feira, 7 de maio de 2012

A RECONSTRUÇÃO DO TABERNÁCULO DE DAVI IV

Cumpridas estas coisas, voltarei e reedificarei o tabernáculo caído de Davi; e, levantando-o das suas ruínas, restaurá-lo-ei, para que os demais homens busquem o Senhor, e todos os gentios sobre os quais tem sido invocado o meu nome, diz o Senhor que faz estas coisas conhecidas desde séculos. Atos 15:16-18.

Cumpridas estas coisas
. Que coisas? As evidências apontam para a obra que foi consumada por Cristo. O tetelestai do Calvário é o brado conclusivo dum parto cósmico que deu início a uma nova raça nascida da sepultura. Adão, o ancestral da espécie em ruínas foi crucificado com Cristo e um segundo homem, cabeça de uma nova raça, eclode da tumba. O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente. O último Adão ressuscitado se tornou espírito que dá vida. 1 Cor 15:45. PA
Preenchidas as condições divinas com a exaltação de Jesus, abre-se o processo para a recons­trução da tenda de Davi que havia sido substituída pelo templo de Salomão. O dia de Pentecostes é o nascimento de uma realidade nova, a Igreja de Cristo, a tenda aberta para o acolhimento salva­dor de todos os povos. O Senhor desnudou o seu santo braço à vista de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação de Deus. Is 52:10.
O templo construído por Salomão não foi uma proposta de Deus, mas uma permissão dele diante de um desejo do rei Davi em edificar um templo ao Senhor. A idéia henoteista de fixação e localização da divindade foi sempre um fantasma na história do povo de Deus.
Jacó já havia levantado uma coluna em Betel, ungindo-a com óleo, supondo ser ali a casa de Deus. Porém o conceito da revelação bíblica é da onipresença e mobilidade na manifestação divina. Javé não pode ser contido num lugar. Assim diz o Senhor: o céu é o meu trono, e a terra o estrado dos meus pés; que casa me edificaríeis vós? E qual é o lugar do meu repouso? Is 66:1.
Voltarei. Quem voltará? A expressão verbal do texto focalizado, também destaca a pessoa de Cristo, que enviando aos seus discípulos o Espírito Santo, inicia o plano da reconstrução do tabernáculo de Davi, que se encontrava derrubado. Desde a inauguração do templo, a tenda que estivera erguida no monte Sião foi retirada e dobrada. A tenda havia se deteriorado com o tempo.
E edificarei. Quem edificará? Jesus tinha afirmado, numa conversa reservada com seu colegiado, que ele era a pessoa que edificaria a sua Igreja. Por outro lado, ele afirmou, igualmente, que não deixaria os seus discípulos sós, mas enviaria o Espírito Santo, a fim de estar sempre com eles.
O Espírito só poderia ser dado depois que Jesus fosse glorificado. Agora que foram cumpridas as cláusulas e Cristo foi recebido no trono da glória, o Espírito Santo foi derramado e principia a restauração do tabernáculo em ruínas. Mas, afinal, o que é este tabernáculo caído de Davi? Que realidade espiritual está por traz deste termo?
Davi é um dos tipos mais adequados de Cristo. Ele passou por três unções bem marcantes. Ele foi ungido por Samuel com a unção profética como profeta de Javé, quando estava na casa de seu pai. Depois ele foi ungido como rei de Judá, quando Saul ainda era o rei de Israel. E finalmente foi ungido como rei e sacerdote ao assumir o reino de Israel, com a unificação das doze tribos.
Na ocasião desta última unção Davi percebeu que a arca da aliança se encontrava fora do seu lugar santíssimo no tabernáculo do Senhor. Por quase cem anos a arca estivera afastada do seu endereço permanente, mas Davi não promove a recondução da arca ao antigo tabernáculo. Algo significativo deve ter acontecido, pois ao invés de levar o móvel sagrado para o seu lugar de origem, ele constrói uma tenda nova para colocar a arca.
No tabernáculo construído por Moisés, a arca ficava no último aposento, num local fechado e sem luz de candeeiro, só podendo ser contatada pelo sumo sacerdote uma vez por ano, no dia da expiação. Todavia agora a arca iria para uma tenda aberta, sem véu e poderia ser vista 24 horas, durante todos os dias, por todos os adoradores.
Esta mudança de mentalidade assinala uma mudança radical de paradigma. O velho tabernáculo já havia completado o seu papel. O povo sem pátria agora tinha o seu chão. Davi conquistou os povos que ainda prevaleciam contra Israel em seu tempo e ele começava a dinastia de onde viria o Messias. O culto exclusivo de Israel, fechado para os outros povos, precisava ser aberto, pois a salvação de Javé engloba mais do que uma nação.
Davi foi um dos primeiros a enxergar o ecumenismo da graça. O Deus de Israel é o Deus de todos os povos. Aquilo que Isaias viu com nitidez na profecia, Davi percebeu no significado do seu tabernáculo. A glória do Senhor se manifestará, e toda a carne a verá, pois a boca do Senhor o disse. Isaias 40:4. A glória do Senhor é Cristo que foi tipificado na arca sem véu.
Mas o povo de Israel se via como o único povo eleito e não concordava com a misericórdia divina para com todos. A atitude de Jonas fugindo num navio para Társis evidenciava o preconceito da sua gente em relação à salvação de todos os povos. Ele não aceitava que Deus fosse gracioso e bondoso com outras nações, principalmente uma nação perversa como a Assíria. Vejam aqui a desculpa que Jonas deu para a sua fuga: pois sabia que és Deus clemente, misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e que te arrependes do mal. Jonas 4:1b.
Esta mentalidade exclusivista se arrastava no meio do povo de Deus, inclusive no tempo de Jesus, pois Israel continuava se achando especial. Mateus quando escreveu o seu Evangelho, dedicado à evangelização dos judeus, omitiu, na citação da profecia de Isaias, a expressão: e toda carne verá a salvação de Deus. Alguns estudiosos da Bíblia acham que essa supressão foi proposital, pois se ele a tivesse feito, com certeza, os seus leitores fechariam o filtro para a mensagem de Cristo.
Lucas, entretanto, ao escrever o seu Evangelho, visando à pregação de Cristo aos gregos, faz a citação do profeta na íntegra, uma vez que o seu objetivo era levar o conhecimento de Cristo para todas as pessoas. Aqui está um dos significados do tabernáculo de Davi, isto é, a universalidade da salvação de Deus. A arca achava-se descoberta e visível a todos. Na tipologia, a glória do Senhor encontrava-se manifesta aos povos.
No tabernáculo de Davi tem-se apenas um sacrifício no dia da inauguração. Sete novilhos e sete cordeiros são sacrificados como símbolo de um holocausto perfeito e consumado. Durante todo o tempo em que a arca permaneceu nesta tenda, no monte Sião, não houve qualquer sacrifício neste local. Todas as ofertas e sacrifícios eram feitos no átrio do tabernáculo do Senhor que se encontrava em Gibeão, sem a presença da arca.
Este sacrifício singular aponta para o sacrifício universal de Cristo. Sete é um número completo e assinala uma obra suficiente, eficiente e conclusiva realizada por Cristo no Calvário. Sete novilhos falam do poder absoluto de Deus para cobrir a totalidade do pecado e os sete cordeiros indicam a suficiência de Cristo como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.
Abiatar era o sumo sacerdote no tabernáculo de Davi que se encontrava em Sião, enquanto Zadoque era o sumo sacerdote no tabernáculo do Senhor no monte Gibeão. Dois sumos sacerdotes ministravam em Israel em tabernáculos diferentes e com ministérios distintos. Zadoque ministrava sob o enfoque dos sacrifícios, porém Abiatar cuidava do sacerdócio do louvor, uma vez que na tenda de Davi não havia sacrifício de animais, mas sacrifício vivo de adoração.
Por fim o sacerdócio. Abiatar foi o último descendente da família de Eli, o único que restou no massacre de Saul contra os sacerdotes e que se tornou sumo sacerdote no projeto estatal de Davi. A linhagem de Eli foi amaldiçoada, porque este velho sacerdote havia perdido a visão espiritual, deixando que seus filhos tripudiassem sobre o significado das coisas sagradas. Por esta causa a arca foi arrancada do seu endereço, tornando-se motivo de escárnio entre os povos.
Depois da morte de Davi, Salomão edificou o templo e definiu o sumo sacerdócio com a casa de Zadoque, banindo Abiatar da sua função em razão do seu apoio à rebelião de Adonias, bem como demoliu o tabernáculo de Davi. A história deste tabernáculo parece ter chegado ao fim.
Parece, mas não. Apesar de Abiatar ter sido o primeiro e último sumo sacerdote da tenda em Sião, ele prefigura a unicidade do sacerdócio universal dos crentes que viria se manifestar na reconstrução do tabernáculo, profetizada por Amós e apresentada pelo apóstolo Pedro: vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo. 1 Pe 2:5.
A reconstrução do tabernáculo de Davi fala de quatro alicerces importantes da Igreja de Cristo. Primeiro, a unidade plena da salvação de Deus para todos; segundo, a exatidão do sacrifício singular e completo como garantia eterna do perdão a todos; terceiro, a inclusão de todos os povos na obra da redenção, que deságua em adoração viva e quarto, o sacerdócio universal dos crentes.
A salvação de Deus é plena. O sacrifício de Cristo é completo. A inclusão de todos é irrestrita. O sacerdócio dos crentes é universal. Assim, todo aquele que recebe pela graça, através da fé, a plena salvação de Deus cumprida pela obra completa de Cristo, que incluiu a todos os pecadores na sua morte e ressurreição, torna-se um sacerdote do reino da graça, a serviço do evangelho das insondáveis riquezas de Cristo. Esta é a súmula do tabernáculo de Davi, a Igreja de Cristo.

Solo Deo Glória

Nenhum comentário:

Postar um comentário