domingo, 27 de maio de 2012

BEM AVENTURANÇAS I

E Jesus, vendo a multidão, subiu a um monte, e, assentando-se, aproximaram-se dele os seus discípulos; E, abrindo a sua boca, os ensinava, dizendo. Mateus 5:1-2.
A palavra grega makarios, que significa bem-aventurados ou felizes, é usada nove vezes na primeira seção do Sermão do Monte, entre os versículos 3 a 11. A natureza ou o caráter dessas bem-aventuranças descritas por nosso Senhor são inatingíveis pelo auto-esforço, mas são criados no nascido de novo pela habitação do Espírito Santo. O nosso Senhor dirigiu estas palavras aos seus discípulos e não à multidão. O discípulo é aquele que foi chamado para seguir o Cordeiro - é aquele que toma a cruz e O segue.
A primeira bem-aventurança anunciada pelo Senhor é: Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados aqueles que deixam ir as suas próprias possessões e deixam que Deus seja o seu TUDO. (parafraseado) O nosso Senhor abre o sermão do monte com essa bem-aventurança, porque sem ela ninguém pode entrar no reino de Deus. Porque, no reino de Deus, não existem orgulhosos. O orgulho foi à flecha que lançou Satanás e os seus seguidores para as profundezas do inferno. Humildade é a característica fundamental dos filhos de Deus: Eles são pobres ou humildes de espírito. Essa "pobreza" ou "humildade" não significa ausência de bens materiais, mas de um estado íntimo de confiança e dependência de Deus.
Em certo sentido, as demais bem-aventuranças são resultantes da primeira. Podemos dizer que essa bem-aventurança é como um porta-jóias de onde são tiradas as pedras preciosas. Essa bem-aventurança define o início da vida cristã. Na visão de D. Martin Lloyd-Jones: Essa bem-aventurança indica, realmente, um esvaziamento, ao passo que as demais apontam para uma plenitude. Não poderemos ser cheios enquanto não formos primeiramente esvaziados. Não se pode encher de vinho novo um odre cujo conteúdo ainda não tenha sido despejado.
A trajetória do nosso Senhor foi descer e Se humilhar para servir. Como Deus, Se humilhou; como Homem, Se humilhou e Se tornou obediente até a morte, e morte de cruz. Mas Deus O exaltou soberanamente. De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome. Filipenses 2:5-9.
Aquele que se exalta será humilhado, mas aquele que se humilha será exaltado. Que maravilhosa verdade é a Pessoa de Cristo. Que sublime verdade é esta descida e esta ascensão pelas quais Ele enche todas as coisas como redentor e Senhor da glória: Deus descido em amor. O nosso Senhor, voluntariamente e por amor, se humilhou, desceu ao lugar mais baixo: Morte. E é para esse lugar que o Senhor nos chama para seguirmos. De sorte que haja em vós o mesmo sentimento ou disposição mental que houve também em Cristo Jesus.
Portanto, a nossa redenção tem como propósito nos fazer participantes dessa humildade. Humildade não é algo que apresentamos para Deus ou que Ele concede; é simplesmente o senso do completo nada-ser que vem quando vemos como Deus verdadeiramente é tudo, e no qual damos caminho a Deus para ser tudo. Quando a criatura percebe que esta é a verdadeira nobreza, e consente ser com sua vontade, sua mente e seus afetos – a forma, o vaso no qual a vida e a glória de Deus estão para trabalhar e manifestar a si mesmas, ela vê que humildade é simplesmente conhecer a verdade de sua posição como criatura e permitir a Deus ter Seu lugar. Andrew Murray.
Humilde de espírito é aquele que pode dizer como o salmista: Senhor, o meu coração não se elevou nem os meus olhos se levantaram; não me exercito em grandes assuntos, nem em coisas muito elevadas para mim. Certamente que me tenho portado e sossegado como uma criança desmamada de sua mãe; a minha alma está como uma criança desmamada. Espere Israel no SENHOR, desde agora e para sempre. Salmos 131. Está aqui uma alma que descobriu o segredo do descanso, um coração totalmente entregue aos cuidados de Deus. Esta alma não ambiciona grandes coisas em si mesmas, mas se assemelha a uma criança que depende totalmente de seu pai.
O apóstolo Paulo expressou assim o seu sentimento de dependência: E eu estive convosco em fraqueza, e em temor, e em grande tremor. I Coríntios 2:3. Ele não foi para frente de um grupo de ouvintes ou subiu na plataforma ou púlpito com uma atitude de confiança, seguro e desembaraçado, dando a impressão de ser alguém dotado de forte personalidade. Não. Ele foi em fraqueza, temor, e em grande tremor. Ele foi em seu espírito completamente dependente de Deus. É isto que significa ser humilde de espírito.
Em uma conferência de estudo bíblico, um pregador, depois de expor um texto da palavra de Deus, recebeu um pequeno elogio. Como resultado, ele ficou tão inchado, tão cheio de si que o seu "ministério" ficou comprometido, e aqueles que o acompanhavam se afastaram dele. Hoje ele exerce um ministério solo. Melhor é ser humilde de espírito com os mansos, do que repartir o despojo com os soberbos. Provérbios 16:19.
Uma das características de um nascido de novo é saber ouvir. Ele está pronto para ouvir e pronto para aprender; não está preocupado em mostrar o que sabe. O homem prudente oculta o conhecimento, mas o coração dos insensatos proclama a estultícia. Provérbios 12:23. Cuidado com aqueles que só querem ensinar, os "professores" de Deus, que não tem ouvidos para ouvir. O nosso suposto "conhecimento" pode envaidecer-nos, tornando-nos orgulhosos, levando-nos à ruína. A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda
Ser humilde de espírito é ver que nada somos, que nada temos, é olharmos para Deus em completa submissão, dependendo inteiramente de Sua misericórdia e de Sua graça. Podemos ilustrar esse fato usando a experiência do profeta Isaías. Quando este viu a glória de Deus, exclamou: "Ai de mim! A revelação de Deus abate o homem, levando-o à consciência de sua completa miséria e nulidade. Então disse eu: Ai de mim! Pois estou perdido; porque sou um homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios; os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos. Isaías 6:5.
A segunda bem-aventurança é: Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados. Mateus 5:4. Bem-aventurados aqueles que deixam ir sua própria felicidade, deixa que Deus seja o seu tudo (parafraseado) De acordo com o grego a palavra "penteo", que traduzida para o português significa choro, expressa um estado de profundo lamento de um coração quebrado, e de um sentimento de profunda miséria. Significa ver-se completamente incapaz de fazer algo por si mesmo. Tal sentimento não é só pela sua situação, mas também pelo seu ambiente.
Por que chorar? Pode haver maior infortúnio do que experimentar a nossa insuficiência, miséria e desesperança, e conhecer que nada somos, absolutamente, indignos? É, porém, uma benção ver-se reduzido a esses extremos. Quando somos reduzidos aos extremos, ao mais profundo do poço, podemos olhar para cima, e encontrarmos em Cristo a nossa total suficiência. Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte. II Coríntios 12:9-10.
Por que chorar? Pode haver maior infortúnio em ver por todos os lados, trevas, injustiça, opressão, rejeição, pobreza e sofrimento? Pode haver maior dor do que ver o Senhor e os seus ensinamentos achincalhados, ridicularizados? As minhas lágrimas têm sido o meu alimento dia e noite, enquanto me dizem continuamente: O teu Deus, onde está? Salmos 42:3. Essa é a reação de um coração que chora pela indiferença do homem para com Deus.
Por que chorar? Por causa do amor. O amor é sofredor. O nosso Senhor chorou ao contemplar a cidade de Jerusalém: Quando ia chegando, vendo a cidade, chorou e dizia: Ah! Se conheceras por ti mesma, ainda hoje, o que é devido à paz! Mas isto está agora oculto aos teus olhos. Pois sobre ti virão dias em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras e, por todos os lados, te apertarão o cerco; e te arrasarão e aos teus filhos dentro de ti; não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste a oportunidade da tua visitação. Lucas 19:41-44.
Jesus desceu aos abismos da nossa degradação, desceu, em certo sentido, mais baixo do que nós todos. "Vendo a cidade", vendo a humanidade chorou. Ele não pode amar sem sentimento e sem coração. Seu amor é humano e divino ao mesmo tempo. Deus, infinitamente rico, encarnou-se para experimentar a pobreza e a miséria do homem decaído, para fazê-lo rico. É a nossa fraqueza que nos abre os Céus, a nossa fraqueza é a matéria prima da misericórdia de Deus. O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado. Lucas 18:13-14.
Que esperança resta para aqueles que choram, em face de suas limitações e do estado em que se encontra o mundo? Há o consolo – o consolo da bendita esperança, o consolo da glória vindoura. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Embora gemendo, os filhos de Deus, são felizes, por causa da esperança. Naquele "dia", quando tudo se fizer novo, a dor, a tristeza, os suspiros não mais existirão. Nenhuma lembrança haverá das coisas passadas, mas experimentaremos, por toda a eternidade, a alegria por estarmos diante do Cordeiro, entoando um novo cântico. Naquele dia nós iremos compartilhar do mesmo sentimento que Deus tinha como visto em Gênesis, que tudo é "bom".

Solo Deo Glória.

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