quinta-feira, 1 de março de 2012

VIVO PARA MORRER. MORTO PARA VIVER

VIVO PARA MORRER. MORTO PARA VIVER
Fiel é está palavra: se já morremos com ele, também viveremos com ele. 2 Timóteo 2:11.
Deus criou o homem, com a vida, para viver. O homem não tinha vida eterna, mas tinha a vida sem a contaminação da morte. A vida de Adão, antes do pecado, era vida soprada por Deus, era uma vida criada sem a morte, mas não era a vida eterna. Adão tinha a opção pela vida eterna. No Jardim do Éden havia duas fontes de decisão. A liberdade pressupõe escolha, e esta requer opção. As duas árvores do Jardim de Deus apontavam para uma questão de preferência. A árvore da vida eterna e a árvore que causaria a morte estavam em jogo. A vida eterna e a morte ficaram como matéria de decisão do homem. O homem era uma alma vivente capaz de decidir entre a vida eterna e a morte. Resolve, e serás livre. Por livre vontade, ainda que tentado, o ser humano preferiu a árvore que originava a morte. A tentação podia ser da serpente, mas a decisão era do homem.
No momento do pecado, as algemas da morte aprisionaram o tronco da raça humana. Adão se tornou instantaneamente um morto, vivendo para morrer. Ele era um morto espiritual. Morte significa separação. A morte não é extinção em qualquer acepção dessa palavra. É sempre separação. O pecado separou o homem de Deus. Mas, o homem ainda tinha vida. A vida biológica poluída pela morte. A vida de Adão não era mais vida para viver, mas a vida contaminada pela morte que esperava o tempo para morrer. O homem no pecado é uma alma vivente que vive apenas para morrer. Assim, o gênero humano encontra-se dominado pelo princípio da morte, de modo que não nascemos para viver, mas nascemos com a vida que certamente vai morrer. Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram. Romanos 5:12.
Somos uma raça sentenciada. Nosso fim já foi decretado no dia em que fomos gerados. Se nascemos, com certeza haveremos de morrer. Todos os que estão vivos encontram-se na fila para morrer. A vida que rege a nossa existência tem um ultimato. Somos uma geração condenada, pois, de cada um que nasce, todos morrem. Correr da morte é tão impossível como correr de nós mesmos. O fim de nossa existência é demarcado pela morte. Vivo, mas vivo para morrer. Que tragédia é a história do pecado! Não há esperança sob o manto escuro da morte. A vida que termina numa sepultura acaba sem qualquer significado. Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens. 1 Coríntios 15:19. Se a morte é, de fato, o fim da vida, esta vida encontra-se destituída de qualquer valor. Mas, graças a Deus, que a Bíblia apresenta uma outra alternativa. Se a morte é o fim da vida, Jesus Cristo é o princípio de uma nova vida. O Senhor Jesus Cristo veio ao mundo, governado pelo pecado e pela morte, para introduzir uma nova realidade. Ele veio para estabelecer o reino da vida. Deus não é Deus de mortos e sim de vivos. Mateus 22:32b. O Deus da vida não pode ficar prisioneiro da morte. A criação de Deus não pode ficar refém numa sepultura. No Reino de Deus, o poder da vida é infinitamente maior do que o poder da morte. Jesus veio inaugurar um novo começo. Ele foi categórico: O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância. João 10:10. Esta é a vida que ultrapassa as dimensões da cova. Temos mais certeza de que nos levantaremos de nosso túmulo do que de nosso leito, instava Thomas Watson. O Evangelho tem uma mensagem vitoriosa da vida. A história da cruz não termina com um funeral, mas com uma celebração. Não há dia de finados no calendário da ressurreição. A proclamação do Novo Testamento é de um Cristo que esteve morto mas está vivo e não um Cristo que esteve vivo e está morto.

Jesus veio com o propósito de estabelecer o Reino da vida no império da morte. Por isso, antes de dar a vida, Ele precisava vencer a morte. O médico tem que derrotar a doença antes de promover a saúde. Só depois de debelar as causas da infecção é que se asseguram os meios da robustez. É matando o princípio da morte que se pode constituir o início da vida. Cristo assumiu o nosso pecado, porque este era a causa de nossa morte. Ele não tinha pecado. Ele não precisava morrer. Mas, Ele morreu. E morreu para nos dar vitória sobre a morte e acesso à verdadeira vida. Ele morreu porque tomou os nossos pecados. Tomando o lugar do pecador na cruz, Jesus tornou-se tão inteiramente responsável pelo pecado como se fosse totalmente culpado. A morte de Cristo foi o golpe certeiro desferido contra o senhor da morte. Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, destes também Ele, igualmente, participou, para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, e livrasse todos que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida. Hebreus 2:14-15. Como disse William Romaine, A morte feriu a si própria, causando sua própria morte, quando feriu a Cristo.
Por outro lado, Jesus, como nosso Salvador, teve que morrer, porque nós é que deveríamos morrer. Ele morreu para nos levar a morrer com Ele. Só a sua morte vicária poderia englobar a nossa morte compartilhada. Ele deveria morrer, porque nós precisávamos morrer para o pecado. Sem a morte do pecador não pode haver justificação. A justiça de Deus exige a pena de morte para o culpado. A conseqüência do pecado é a morte, e só a morte do réu pode garantir a sua justificação. Porquanto quem morreu está justificado do pecado. Romanos 6:7. Isto é: aqueles que morreram em Cristo. Não pode haver perdão sem o cumprimento da justiça. A lei requer que o culpado seja executado. Não é somente a morte do Salvador que satisfaz a justiça da lei, mas a morte do pecador juntamente com Cristo. Jesus só morreu por nós, porque nós tínhamos que morrer com Ele; caso contrário, ainda estaríamos sacrificando os cordeiros, como no Antigo Testamento.
Todos nós nascemos neste mundo para morrer, mas precisamos morrer em Cristo, a fim de renascer para poder viver. Em Adão, nós nascemos para morrer, porém, em Cristo, nós morremos para viver. Quem nasce de Adão, nasce na carne: morto no espírito e mortal no corpo. Quem renasce em Cristo, nasce vivo no espírito mas ainda tem um corpo sujeito aos efeitos da morte física. É bem verdade que esta morte do corpo é provisória. É um sono, enquanto aguarda as providências da economia divina. Deus regenera o nosso espírito aqui na terra, para possuir um corpo glorioso, depois da ressurreição, lá no seu Reino. A Bíblia mostra que todos os mortos fisicamente, que tenham morrido em Cristo para o pecado, ressuscitarão com corpos glorificados, para uma vida que não tem fim. Se a morte pudesse deter algum pedaço do homem, a salvação de Cristo não seria completa. Graças a Deus que a salvação é sem retoques. A causa de Deus nunca corre perigo; o que Ele começou na alma ou no mundo, levará até o fim. Nada pode impedir ou estorvar os decretos e determinações de Deus. Ora, se já morremos com Cristo, certamente viveremos por meio da vida de Cristo. Esta é a essência do Evangelho: estou morto para viver. Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim. Gálatas 2:19b-20.

Solo Deo Glória

A PÉROLA DOS SALMOS

Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida: e habitarei na casa do Senhor por longos dias. Salmo 23:6.
O Salmo 23 é considerado pelos estudiosos da Bíblia como a pérola dos Salmos, pela sua simplicidade, beleza e doçura. Encontramos aqui um relacionamento íntimo e intenso do Pastor com a ovelha. O Pastor é o nosso Senhor Jesus e as suas ovelhas são todos aqueles que foram redimidos pelo Seu sangue. Esta pérola está fundamentada em três grandes verdades: a provisão, o andar e a comunhão.
A provisão está relacionada ao que o Senhor é, e o que Ele fez por nós. Numa palavra: a provisão nada mais é do que a Sua suficiência. Vemos isto nos versículos 1,2,3: O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará. Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso; refrigera-me a alma. Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome. O salmista começa com uma grande afirmação: O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará. Ele não faz nenhuma alusão à necessidade, mas tomou a posição de um filho que, nada tendo, mas possui tudo. Pobre, mas rico e abundante Nele. Esta é a história de cada um de nós: nossa pobreza O fez pobre para que, Nele, fôssemos ricos.
Ele se fez faminto e sedento por nós, para nos levar a um lugar de refrigério. Estávamos cansados, fatigados, mas Ele nos deu repouso. No evangelho de João capítulo 7:37, encontra-se um relato em conexão com a festa do tabernáculo: No último dia, o grande dia da festa, levantou-se Jesus e exclamou: Se alguém tem sede, venha a mim e beba. João disse, “levantou e exclamou”. Qual é a força que está por trás desta atitude de Jesus ao se levantar e exclamar? Alguns estudiosos vêem aqui um momento único, algo parecido com um intercessor que se coloca no lugar de alguém e se desespera pelo desesperado e sedento. E, ao mesmo tempo, Jesus se revela como a Fonte única e abundante para dessedentar o sedento, venha a mim e beba.
Venha a mim e beba, esta é a vida transbordante. Em um dos nossos hinos, encontramos uma frase que diz: Tu, oh Cristo, és tudo que eu quero. Mais do que tudo, em ti, eu encontro. Esta é a linguagem daquele que ouviu e recebeu o chamado do nosso Senhor, venha a mim e beba.O apóstolo Paulo fala de uma riqueza em glória. E o meu Deus, segundo a sua riqueza em glória, há de suprir, em Cristo Jesus, cada uma de vossas necessidades. Filipenses 4:19. Esta palavra “riqueza” sugere um suprimento infinito e inesgotável, pois as riquezas de Deus, ao contrário das riquezas do mundo, não têm absolutamente limite. A palavra grega riqueza, Ploutos, é semelhante a Pleion, que significa muito, muito mais, tendo a mesma raiz que expressa a idéia de pleno, cheio e abundante. Mas este conceito não basta; é preciso acrescentar outra palavra em grego, Perisseuo, que significa exceder, ser supérfluo. As riquezas em Cristo são tão abundantes em nossa direção que chegam a exceder qualquer tipo de demanda, mesmo levando em conta nossa desmedida falta de merecimento. Nas palavras de Guthrie: A miséria do homem e não o seu mérito é o ímã que atrai dos céus o Salvador.
Depois da provisão, começamos a andar no caminho traçado pelo Pastor. Ele conhece o ponto de partida, o caminho dos vales, dos montes e montanhas. Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam. O nosso Senhor conhece os perigos, as dificuldades que poderiam ocorrer com as ovelhas. Nesta jornada, o Pastor não se ausentará e jamais abandonará o Seu rebanho.
Andar com o Senhor é aceitar o seu jugo, que não é pesado, pois Ele disse: Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve. Mateus 11:28-30. Neste texto, o Senhor nos chama para Si, vinde a mim, e nos fala da nossa união com Ele; em seguida, Ele nos pede para tomarmos o seu jugo, mostrando-nos o princípio diário do nosso morrer, e, finalmente, Ele diz: aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração. Aqui é-nos revelado o propósito pelo qual fomos chamados: para sermos parecidos com Ele. Se dissermos que estamos andando com o Senhor e não trouxermos estas duas marcas de Cristo, não é com Ele que estamos andando.
Unidos em Cristo, a cruz realizará a obra de desconstrução de tudo aquilo que não agrada ao Senhor e abrirá o caminho para um relacionamento íntimo com o nosso Senhor. A caminhada é longa, e aqueles que nasceram de novo precisam saber que essa intimidade não é instantânea, mas sim um processo. Muitos tentam acelerar essa caminhada criando métodos, mas infelizmente esses métodos vão causar sérios problemas, porque o relacionamento íntimo com o Senhor é uma conquista diária.
Nosso Pastor já passou pelo vale da morte. E, Nele, podemos dizer: não temerei mal nenhum. Isso é verdadeiro em todos os aspectos. Da vitoriosa experiência de Sansão, sai o seu enigma: Do comedor saiu comida, e do forte saiu doçura. Juízes 14:14. Aqui Sansão se refere ao leão que ele matou e, dias depois, encontrou com um enxame de abelhas com mel. Que lição poderia tirar deste episódio? O leão, neste contexto, tipifica um problema ameaçador, pois nenhum de nós está vacinado contra dificuldades. Então, como tirar comida e doçura do comedor? Olhando todas as coisas do ponto de vista de Deus. Caso contrário, seremos comidos pelo leão. Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar. 1Pedro 5:8.
Aqui está o segredo da vida cristã: em vez de sermos devorados pelos problemas, nós que os devoramos, e é nisto que nos tornamos dóceis pela doçura de Cristo. E passamos a ser como um favo para uma humanidade mergulhada na amargura. Esse é o verdadeiro significado do crescimento. Tomou o favo nas mãos e se foi andando e comendo dele; e chegando a seu pai e a sua mãe, deu-lhes do mel, e comeram; porém não lhes deu a saber que do corpo do leão é que o tomara. Juízes 14:9.
Quando passamos pelo vale da sombra da morte, que são aqueles momentos sombrios e humilhantes, aprendemos o sentido da comunhão. No sofrimento, ao invés de nos referirmos a Deus como “ele”, passamos a chamá-Lo de “tu”. Assim, quando nos encontramos no vale da sombra da morte, dizemos: porque tu estás comigo. Estamos face a face com o nosso Deus. O caminho foi preparado para desfrutarmos da Sua mesa, preparado por Ele mesmo. Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários, unges-me a cabeça com óleo; o meu cálice transborda.
A nossa caminhada prossegue. Agora, nos encontramos na terceira e grande verdade: a comunhão. Se lermos cuidadosamente a Bíblia, vamos descobrir que, antes de qualquer realização ou trabalho, Deus nos chamou para vivermos diante Dele. Antes do ide, temos o vinde. Antes do fazer, temos o crer. O desejo expresso de Deus nas escrituras, antes de qualquer realização externa, é nos conduzir a uma vida mais profunda simbolizada pela “mesa”. Por que preferimos o ide ao invés do vinde, o desempenho ao invés do descanso, o trabalho quando Ele nos pede para esperar?
Adão, depois da queda, tentou se cobrir com folhas de figueira. Caim ofereceu a Deus uma oferta, fruto do seu trabalho. Os homens perguntavam a Jesus: Que faremos para realizar as obras de Deus? Tudo indica que, por trás das realizações há uma necessidade de aceitação. O homem tenta ser aceito por Deus pelos seus méritos. Então, mãos a obra!
Depois da queda, o homem perdeu a visão do verdadeiro motivo pelo qual foi chamado. Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados à comunhão de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor. 1 Coríntios 1:9. Isto não significa que o homem não tenha que realizar algumas tarefas. Sim, o homem tem algo para realizar, mas em cooperação e a partir de Deus. Ao criar o homem, o Senhor o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar. Na redenção Deus trabalha no homem para que este possa trabalhar para Ele.
Deus, em Cristo, está nos atraindo dia após dia para a “mesa” que Ele mesmo preparou para nós. Ele quer que tenhamos um relacionamento íntimo. Ele está nos conquistando diariamente para nos levar à Sua mesa, onde desfrutaremos das delícias por toda a eternidade. Esse é o objetivo final do Pastor.Tudo o que Ele planejou e espera e tem em vista é nos conduzir à Sua presença. Tu me farás ver os caminhos da vida; na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente. Salmos 16:11.
O Espírito Santo, através do apóstolo Paulo, usa uma palavra grega para falar dessa superabundante graça de Deus: Enquanto oram eles a vosso favor, com grande afeto, em virtude da superabundante graça de Deus que há em vós. A palavra Huperballo significando aquilo que passa de um certo limite, como uma flecha que ultrapassa o alvo, ou uma vasilha que ferve e derrama o seu conteúdo, transmitindo a idéia daquilo que é excessivo, exagerado, proeminente.
A provisão nos fala da riqueza de Sua graça que Ele mesmo derramou sobre nós. O nosso Deus é pródigo em graça. Vários termos são usados para expressar a riqueza que está disponível para os seus. A multiforme graça, a suprema riqueza da sua graça, insondáveis riquezas, graça sobre graça, plenitude, graça transbordante. A graça nos é apresentada como uma benesse pura, generosa e transbordante, estendendo o seu favor para os que não merecem: Cálice transbordante.
O nosso Pastor nos conduz pelo vale da sombra da morte. Através dessas experiências, começamos pouco a pouco a entender o coração de Deus e a compreender que, para que Cristo seja formado em nós, é necessário passarmos por dores de parto. E, em Sua companhia, desfrutaremos do Seu amor. Compremos, então, colírio para os nossos olhos para que possamos vê-Lo! E, ao vê-Lo, seremos reduzidos a zero. Porque tu és pó e ao pó tornarás.
Solo Deo Glória

A TRANSFORMAÇÃO DA ÁGUA EM VINHO

Estavam ali seis talhas de pedra, que os judeus usavam para as purificações, e cada uma levava duas ou três metretas. João 2:6.
O Senhor Jesus realizou muitos milagres durante o seu ministério terreno. Este, a transformação da água em vinho, foi escolhido pelo Espírito Santo para dar início a um conjunto de oito milagres registrados no Evangelho de João. A riqueza da mensagem e a sua significação, que estão desenhadas nas entrelinhas, são-nos reveladas durante a narrativa. Para uma melhor compreensão do texto, consideraremos sete aspetos do milagre.

Primeiro: Encontramos uma notável figura da regeneração do pecador. Na ilustração das seis talhas de pedra, vemos aqui a condição do homem antes da sua regeneração; ele é como uma talha de pedra: vazio, frio, sem vida e inútil. Essa é a condição de todos os homens, revelada plenamente nesta figura. O homem nasce destituído da vida de Deus. Por isso, todo o seu ser está comprometido, destituído de entendimento espiritual, em profundas trevas. Toda a cabeça está doente, e todo o coração, enfermo. Desde a planta do pé até à cabeça não há nele coisa sã, senão feridas, contusões e chagas inflamadas, umas e outras não espremidas, nem atadas, nem amolecidas com óleo. Isaías 1: 5-6. O coração, na Bíblia, deve ser entendido como a pessoa integral do homem: é o centro moral de toda a sua atividade intelectual, emocional e volitiva. Por isso, este coração está completamente enfermo.
Segundo aspecto: Vemos a inutilidade da “religião dos homens” para salvar e purificar o pecador. A religião é fruto do esforço centrado no homem para encontrar-se com Deus. Estas talhas estavam intencionadas para o cerimonial de purificação. Um ritual simplesmente externo desprovido de poder para tocar no coração dos homens. O homem encontra-se numa total incapacidade para fazer qualquer contribuição para tornar-se aceito diante de Deus. O coração do evangelho está no fato de que, na cruz, Deus publicamente propôs Cristo como a oferta pelo pecado, e, por esta oferta, todo homem tem acesso à presença de Deus.
Para o apóstolo Paulo, que era completo na sua religiosidade, ocorreu uma mudança radical. O seu antigo ganho tornou-se perda. Cristo tornou-se tudo para o apóstolo. Não era o mal que desaparecia, mas desaparecia tudo o que se ligava a ele como vantajoso para a carne. Era agora outra Pessoa – e não ele próprio – que lhe era preciosa. Que mudança profunda e radical em todo o seu ser. Outrora, na sua religião, ele era o centro. Quando esta cessa de ser o centro da sua própria importância, um outro, que é digno de ser, torna-se o centro de sua existência: uma Pessoa Divina, um Homem Celestial, Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé. Filipenses 3:8-9.
O apóstolo Paulo podia, se fosse preciso, vangloriar-se em tudo o que dizia respeito à carne. Tudo o que constituía privilégio judaico ele o possuía no mais elevado grau; ele tinha ultrapassado todos os outros num santo zelo contra os inovadores. Mas, uma única visão mudou por completo a sua vida. Paulo viu o Cristo glorificado. Desde então, tudo o que ele possuía segundo a carne foi lançado por terra. O pior de todas as imitações é uma religião que não muda o coração: uma religião que tem tudo, menos o amor de Cristo entronado na alma. F. Whitfield

Terceiro: Pela palavra de Jesus, as talhas foram cheias com água. A água é um dos símbolos da palavra de Deus. E é por meio da Sua palavra que somos vivificados. O Espírito Santo usa a palavra de Deus para vivificar o espírito do homem outrora morto por causa do pecado. A palavra de Deus não só nos regenera, como também nos sustenta em momentos difíceis. A nossa salvaguarda contra a tentação é a palavra de Deus quando usada com discernimento para aplicá-la às circunstâncias presentes.
Horas negras chegam para todos. Quando pedras são lançadas, ondas perturbadoras nos atingem, a menos que tenhamos aprendido a confiar na presença perpétua Daquele que pode formar e manter uma grande tranqüilidade dentro da alma. Pela palavra de Deus, somos guardados das ciladas do diabo. É pela palavra de Deus que se efetua a separação da alma e do espírito. Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração. Hebreus 4:12. O Bispo Jewel disse: A palavra de Deus é a água da vida; quanto mais a colhemos, mais ela se renova. É fogo da glória de Deus; quanto mais a sopramos, mais brilha ao se queimar. É o grão do campo do Senhor; quanto mais a moemos, mais produz. É o pão do Céu; quanto mais é partida e distribuída, mais sobra. É a espada do Espírito; quanto mais polida, mais brilha.
Quarto aspecto: A água produziu vinho, “bom vinho”. O vinho é símbolo da alegria. Aqui não se refere a uma alegria produzida pelo efeito da química do vinho, nem tampouco no otimismo natural, mas como fruto decorrente da presença de Cristo em nossos corações. A autobiografia de Teresa de Ávila está cheia das descrições dos êxtases arrebatados nos quais ela sentia uma alegria indescritível na presença de Deus. Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos. Filipenses 4:4. Alegrar-se sempre no Senhor, e é Nele que encontramos tudo aquilo que nada pode mudar. Para os cristãos, o Senhor é a fonte de alegria cujo caudal, mesmo na angústia, jamais se esgota. Tu me farás ver os caminhos da vida; na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente. Salmo 16:11. Somos colocados no relacionamento com uma Pessoa incomparável: o amado Filho de Deus, e, na Sua presença, podemos viver numa atmosfera de uma profunda e interminável alegria.

Quinto: Nós lemos: Assim iniciou os milagres de Jesus. Isto é precisamente o que o novo nascimento é: um milagre. Do início até o fim. A regeneração começa por um milagre, fruto da graça, e, por esta mesma graça, somos conduzidos dia a dia. A vida do homem, no estado de pecado e fora da graça, é, de acordo com a palavra de Deus, uma vida de ofensas e pecados. Essa é a vida do homem sem a graça de Deus: ela está corrompida, vivendo nos desejos da carne. O homem foi criado com o propósito de viver sob o governo da graça, mas ele se apartou disso, saiu da sua verdadeira posição.

Sexto aspecto: E manifestou Sua glória, isto significa que é na regeneração do pecador que a glória do nosso Senhor e salvador é manifestada. A gloriosa substância do que estava escondido sob as figuras manifestou-se na Pessoa do nosso Senhor Jesus. A glória da Pessoa de Jesus Cristo não só se manifestou, mas se manifestará por toda a eternidade. O que mais nos surpreende é que Deus nos fez participantes dessa glória. Pela queda, perdemos a glória de Deus, isto é, perdemos a presença de Cristo no nosso íntimo, mas, na redenção, essa glória é-nos restituída, e, por ela, somos transformados conforme a Sua imagem.
O chamamento de Deus é a garantia de que aqueles que Ele ressuscitou para uma nova vida em Cristo não deixarão de alcançar a glória futura, pois aqueles que foram conquistados pela graça e forjados na bigorna da graça de Deus não podem ser esquecidos no meio da jornada. A visão do cristão deve transcender a tudo: ele é um homem celestial vivendo aqui na terra. Isto significa que o nascido de Deus deve olhar todas as coisas sob o ponto de vista de Deus. Pois, o nosso grande Deus está reunindo todas as coisas para nos fazer parecidos com o Seu Filho. Alguém expressou assim: Que as nossas dificuldades sejam bem-vindas.
Sétimo: Os seus discípulos creram nele. O homem morto não pode crer. A primeira reação da alma renascida é voltar-se para Cristo. É da obra da regeneração que procede o ato de crer em Cristo. Ser um filho de Deus é inteira e unicamente o resultado da graça de Deus, graça que brota inteiramente do caráter misericordioso de Deus. Assim, o fundamento da salvação é algo que vem da parte de Deus. Isto significa que não é uma resposta de Deus a alguma coisa que vem de nós. Graça é um dom imerecido de Deus aos homens. Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, —pela graça sois salvos. Efésios 2:4-5.

O que a palavra de Deus está afirmando aqui é que estávamos mortos, isto é, absolutamente sem vida, à semelhança de Lázaro que jazia no tumulo há quatro dias, sem uma centelha de vida. A primeira coisa que nos é necessária, é que nos seja transmitida a vida, para que sejamos vivificados. E, foi exatamente isto que Deus fez por nós. E a pergunta é esta: pode um morto reviver? Veio sobre mim a mão do SENHOR; ele me levou pelo Espírito do SENHOR e me deixou no meio de um vale que estava cheio de ossos, e me fez andar ao redor deles; eram mui numerosos na superfície do vale e estavam sequíssimos. Então, me perguntou: Filho do homem, acaso, poderão reviver estes ossos? Respondi: SENHOR Deus, tu o sabes. Disse-me ele: Profetiza a estes ossos e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do SENHOR. Assim diz o SENHOR Deus a estes ossos: Eis que farei entrar o espírito em vós, e vivereis. Ezequiel 37:1-5.

Acaso podem reviver estes ossos? Há uma única resposta: sim, pela graça. Chegamos, pois, a esta inevitável conclusão: somos cristãos, neste momento, única e inteiramente pela graça de Deus. Quando éramos inimigos, alienados e completamente mortos espiritualmente, Deus buscou-nos como resultado da Sua bondade. A primeira coisa que o homem precisa é de vida. O preço para ser vivificado foi a cruz. Ele nos vivificou juntamente com Cristo. Portanto, a jactância é inteiramente excluída e o gloriar-nos até da fé, também tem que ser excluído. A salvação é inteiramente de Deus.

A fé é o canal, o instrumento através do qual esta salvação, que é pela graça de Deus, vem a nós. Somos salvos pela graça por meio da fé. A fé é simplesmente o meio através da qual a graça de Deus nos introduz em Cristo. Devemos estar certos que não é a fé que nos salva, mas, somos salvos pela graça. Não é a nossa crença, a nossa fé, não é o nosso entendimento e nada que façamos; tudo isso está excluído, pois pela graça somos salvos por meio da fé, que vem pelo ouvir e o ouvir da palavra de Deus. E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo. Romanos 10:17.

Solo Deo Glória


DOIS HOMENS, DOIS DESTINOS

Havia certo homem rico que se vestia de púrpura e de linho finíssimo e que, todos os dias, se regalava esplendidamente. Havia também certo mendigo, chamado Lázaro, coberto de chagas, que jazia à porta daquele; e desejava alimentar-se das migalhas que caíam da mesa do rico; e até os cães vinham lamber-lhe as úlceras. Aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos para o seio de Abraão; morreu também o rico e foi sepultado. No inferno, estando em tormentos, levantou os olhos e viu ao longe a Abraão e Lázaro no seu seio. Lucas 16:19-23.

Jesus contou esta parábola que salienta dois homens. Dois homens, com dois rumos. São duas vidas que seguem sentidos contrários. Estes homens são da mesma raça, filhos do mesmo pai, Abraão. Ambos são judeus. Vivem no mesmo país e na mesma cidade. Os dois tinham algumas semelhanças, mas várias diferenças. A última semelhança foi a morte. Ambos morreram. Embora fossem tão diferentes em suas vidas, os dois chegaram ao mesmo fim. Este é o destino de todos os homens.
Eles eram muito diferentes. Um era rico, o outro mendigo. Um comia com fartura as iguarias requintadas, enquanto o outro se satisfazia com o sobejo, com as migalhas que caíam da mesa do rico. O nobre se vestia com roupas de grife, o mendigo com os seus andrajos. A pele do homem rico era lustrosa e sadia, mas a de Lázaro era coberta de chagas. Com muita probabilidade, mãos macias, de criadas treinadas, massageavam, com cremes do mar Morto, o corpo nédio do ricaço, enquanto a língua dos cães lambia as feridas do pobre indigente. Nas diferenças, aqui na terra, só no nome o pobre levou vantagem. Jesus chama um de rico, e o pobre de Lázaro. O rico parece que tinha tudo, mas não tinha nome. O pobre era destituído de quase tudo, mas era conhecido pelo seu nome. Lázaro era a forma grega de Eleazar, no hebraico, Deus nos auxilia. Lázaro era pobre, mas tinha nome e tinha Deus como seu arrimo. O rico se bastava, porém ficou incógnito. Era apenas um rótulo. Valia pelo que tinha. Não era um substantivo próprio, apenas um adjetivo.
Mas, como falamos anteriormente, ambos morreram. A morte não poupa ninguém. Morreu primeiro o mendigo, mais fraco, debilitado pela vida. Porém, foi carregado pelos anjos para o Paraíso. A Bíblia não fala de seu sepultamento. Não tinha dinheiro para comprar caixão e terreno em cemitério. Não tinha parentes nem aderentes. Morreu como indigente. Contudo, teve um séquito de anjos. O céu estava presente no seu transporte. Morreu também o rico, e foi sepultado. Certamente, teve enterro com pompas. Teve gente importante carregando seu esquife. Velório de bacana é concorrido. Mas não tinha a carruagem de Deus fazendo o transporte. Foi direto para o inferno. Que paradoxo há entre aqui e lá!
Ambos morreram, Lázaro e o rico. Entretanto, Lázaro foi para o Paraíso e o rico para o inferno. Os destinos são diferentes. Um foi salvo e o outro estava perdido. Será que a pobreza salva e a riqueza manda para o inferno? Esta é uma questão muito apreciada por alguns. Há um grupo de religiosos que pensa que a pobreza e o sofrimento servem para purificação dos pecados. Ser pobre é uma virtude e ser rico é um defeito. Já vi pregação que sustenta a pobreza como meio de salvação. Alguns defendem que é impossível um rico se salvar, baseando-se na palavra de Jesus: É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus. Marcos 10:25. É verdade. Um rico que confia em sua riqueza como fonte de merecimento, ou que depende de sua riqueza para negociar a salvação, está totalmente perdido. Jesus foi específico: Filhos, quão difícil é para os que confiam nas riquezas entrar no reino de Deus! Marcos 10:24b. Porém, não há perdição de rico por causa de sua riqueza, nem salvação de pobre por causa de sua pobreza. A salvação, do ponto de vista bíblico, é totalmente pela graça, sem qualquer ingrediente humano. Deus não salva uma pessoa por ser pobre, nem condena alguém por ser rico. A salvação de Deus é obra absoluta da graça imerecida e do seu amor incondicional.
Lázaro foi salvo porque confiou totalmente na suficiência da graça de Deus. O rico foi para o inferno por causa do seu pecado de incredulidade. Lázaro dependeu das misericórdias de Deus. O rico era um auto-suficiente. Humildade e orgulho nada têm a ver com pobreza e riqueza. Há muitos pobres orgulhosos, como também, há ricos humildes. O orgulho fala de uma pessoa que se basta, que se apoia em seus próprios méritos. A humildade aponta para aquele que, se vendo indigno, depende completamente da graça de Cristo. Por isso, a Bíblia ressalta: Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes. Tiago 4:6b. A humildade... é simplesmente a percepção da completa nulidade, assina Andrew Murray. O grande contraste existente entre os dois homens da parábola não é a riqueza e a pobreza, mas o orgulho e a humildade. Um era incrédulo e não confiava na graça de Deus, o outro dependia totalmente da suficiência da graça. Do ponto de vista de Deus, o rico era pobre e o pobre era rico. Há valores que enriquecem os pobres e outros que empobrecem os ricos. Não basta ter uma grande fortuna, é preciso ser afortunado com as riquezas soberanas de Deus. O homem sem nome armazenou muito tesouro, mas quando as coisas boas desta vida lhe foram tiradas, ele não tinha nada com que atravessar o portão. O pobre mendigo só conseguiu, aqui na terra, ajuntar moscas sobre suas chagas, mas ainda assim, sua fé tinha crédito nos bancos celestiais. Os melhores amigos de Deus são os homens humildes.
A história dos dois continua atrás das cortinas. Jesus deu uma pala do que acontece depois do desenlace. O que sabemos do outro lado da vida foi contado por Jesus. Lázaro, de férias eternas, goza as delícias da plenitude divina. No seio de Abraão, ele usufrui de todas as bênçãos que a graça faculta. Mas o pobre rico, que parece nunca ter erguido os olhos, de repente levanta sua cabeça e lamenta-se com a quentura do aquecedor. O termostato do inferno vive quebrado e a estufa assa sua alma. O calor o atormenta. Ele, que teve tanta mordomia, agora, em razão da secura, suplica pelos favores de um mendigo, que viveu desprezado em sua porta. Orgulho, no inferno, é patético. O comando da terra se torna em queixa e lamentação, ainda que em tom de autoridade: manda a Lázaro... Apreciador de boa bebida, tenta refrescar sua garganta com uma lambida na ponta do dedo do pobre pedinte, umedecido com gotas de água. Que tragédia! O inferno é desolador. Tanta fartura na terra e tanto tormento nesta sauna sem suor. Seu clamor por misericórdia veio tarde demais. Não há ponte do inferno para o céu e o abismo entre os dois é intransponível. Por outro lado, a misericórdia só liga o céu e a terra. Não há qualquer transação entre o Paraíso e o inferno, pois a misericórdia está associada aos homens falidos em suas chances. Não existe habeas-corpus para prisioneiros eternos. O tempo da oportunidade fechou sua porta e não há chave que abra esta fechadura. Tudo que precisamos decidir, com relação à salvação, fica por conta da existência na terra.
O tolo ainda continua tentando alternativas para o seu egoísmo. Lembra de sua família, de seus cinco irmãos, e propõe uma solução fantástica: Pai, eu te imploro que o mandes à minha casa paterna... a fim de não virem também para este lugar de tormento. Lucas 16:27-28b. A pedagogia do inferno sempre quer mudar a metodologia de Deus. A reivindicação advogava a transigência dos propósitos divinos. Mas, a resposta do céu é categórica: Eles têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. Lucas 16:29. Não há trambiques nos critérios espirituais. A salvação de Deus será sempre pela graça e por meio de sua Palavra imutável. Deus não faz concessões: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos. Lucas 16:31. Da mesma forma que Jesus é a única pessoa que pode salvar os homens, a Bíblia é o único livro que revela, claramente, Jesus como a salvação. Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo e a salvação. Não há alternativa: O caminho mais curto para entender a Bíblia é aceitar o fato de que Deus está falando em cada linha. A Bíblia é um livro escrito com o sotaque de Deus e, se não damos crédito a este livro, não temos outra escolha. O destino destes dois homens foi traçado pela acústica. Um ouviu a Palavra de Deus, o outro nada ouviu. A fé vem pelo ouvir, e ouvir a Palavra de Deus. Romanos 10:17.

Solo Deo Glória

A RESSURREIÇÃO, UM ABSURDO LÓGICO

Visto que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos. 1 Coríntios 15:21.
Paulo afirma que a fé cristã se fundamenta numa espécie de loucura. Há uma aberração no entendimento do poder de Deus, que fere frontalmente os princípios da coerência lógica. Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus. 1 Coríntios 1:18.
Ele afirma que a cruz, um sinal evidente da fraqueza humana e um instrumento de morte, é a demonstração do poder de Deus. É paradoxal esta afirmação, mas ela contém o extrato da verdade evangélica. No reino de Deus a fraqueza é a expressão do poder. A Palavra afirma que Deus é amor, e a maior manifestação do seu amor é a cruz. Ela sintetiza de modo claro a disposição divina para justificar o objeto do seu amor. Deus não mede esforços para alcançar aqueles que ele ama. Por isso, Cristo se esvazia até o limite da cruz para conseguir provar, na sua extrema fraqueza, a dimensão infinita do amor divino. A cruz é o palco onde o poder do amor se expressa de modo mais intenso. A loucura do evangelho é diagnosticada pela fraqueza de Deus. Um Deus fraco com uma cruz nas costas sintetiza a maior revelação de poder que o ser humano pode conhecer. O poder da humildade é mais forte do que o poder do orgulho. O poder do amor é infinitamente mais potente do que o poder do ódio.
A onipotência divina agora se manifesta na aceitação da cruz. O Deus todo poderoso se deixa morrer sob a crueldade da crucificação. Cristo que tem todo poder para se defender dessa atrocidade, se submete humildemente ao sofrimento, a fim de demonstrar a abrangência do seu amor incondicional. A fraqueza de Cristo crucificado, na verdade, é a maior comprovação do poder absoluto do amor de Deus. Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores. Romanos 5:8.
Paulo diz que um Deus louco e fraco é mais ajuizado e mais poderoso que tudo aquilo que conhecemos no mundo. Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens. 1 Coríntios 1:25. A cruz é a bitola da fraqueza e a perfeita sintonia com a insanidade, do ponto de vista humano, e, ao mesmo tempo, é a lucidez do amor e a expressão da absoluta capacidade de Deus. A cruz é a porta que se abre para trazer a morte ao Deus onipotente. O Deus criador da vida detido pela morte é, no mínimo, um contra-senso. Mas era necessário que Deus se encontrasse com o homem no mesmo patamar.
Se o pecado introduziu a morte na história humana e se Deus quer salvar o homem da condenação do pecado e do seu poder, ele precisava entrar na raça do homem e chegar até ao degrau da morte. Se Cristo não tivesse morrido, ele não teria se identificado realmente com a espécie humana. A sua morte é um sinal da assimilação do pecado. Cristo Jesus é a encarnação de Deus na geração de Adão, e a sua morte na cruz é a prova mais poderosa do amor divino e o destaque da sua loucura e fraqueza. Porém, a fraqueza de Deus é a plataforma de lançamento do seu poder soberano. Além de sua morte demonstrar a expressão visível do seu amor incondicional, ela é o único meio para comprovar a realidade da ressurreição. Porque, de fato, foi crucificado em fraqueza; contudo, vive pelo poder de Deus. Porque nós também somos fracos nele, mas viveremos, com ele, para vós outros pelo poder de Deus. 2 Coríntios 13:4.
A ressurreição de Cristo é a pedra fundamental da salvação. Não há poder maior do que a restituição da vida que não está mais sujeita à morte. Jesus Cristo é o primogênito dentre os mortos. Ele é o primeiro que ressuscitou para nunca mais morrer. Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia. Colossenses 1:18.
A Bíblia mostra algumas ressuscitações, mas Jesus foi quem iniciou a ressurreição. Ele é o primeiro que ressuscitou da morte, vencendo o pecado e a sepultura. E aqui estamos diante de um grande absurdo lógico, pois a mente natural não é capaz de compreender o poder desta conquista. A ressurreição é inconcebível para a mente racional, pois a morte é um assunto sem alternativa para a ciência. A morte é o fenecimento da vida, a extinção da menor expectativa. Ela é a pá de cal em qualquer biografia, e um beco sem saída na história humana. Como se pode falar de ressurreição diante de uma realidade que extermina com toda esperança existencial?
O homem natural não tem condições lógicas de admitir a ressurreição de Cristo ante a impossibilidade humana de reverter o lance cruel da morte. Se os recursos da ciência não são capazes de reviver um cadáver, então a ressurreição é uma aberração da fé. De fato, a ressurreição é um assunto que não consta na pauta da mera racionalidade. Ainda que ela não seja irracional, seu entendimento vai além do intelecto. A fé cristã não é antilógica, ainda que seja enigmática em muitos aspectos. Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. 1 Coríntios 2:14.
A ressurreição é uma categoria espiritual que foge ao controle da mente. A fé cristã não explica a ressurreição, porém a ressurreição de Cristo explica a existência da fé cristã. O cristianismo começa onde termina a competência humana de elucidar os fatos. Ele inicia na boca de uma sepultura vazia sob a alegação do entendimento. Alguém disse que o símbolo do cristianismo é uma cruz desocupada e a prova da fé é um túmulo vazio. João chegou no sepulcro e o viu escancarado. A grande pedra que vedava a entrada da sepultura havia sido removida e o corpo não se encontrava no local. Então, entrou também o outro discípulo, que chegara primeiro ao sepulcro, e viu, e creu. João 20:8. A tumba abandonada é a estréia da fé abonada pela ausência de defunto.
As medidas de governo foram inúteis para deter o milagre da ressurreição. A escolta policial não pode impedir a surpreendente manifestação do poder divino, nem a propina conseguiu bagunçar a convicção das testemunhas. A ressurreição de Jesus Cristo rompeu todos os obstáculos e estabeleceu a base da fé imperecível. O cardeal americano Fulton Sheen disse que Satanás pode aparecer com vários disfarces como Cristo, e, no fim do mundo, apresentar-se-á como benfeitor e filantropo; mas Satanás jamais poderá aparecer com cicatrizes nas mãos. A ressurreição de Cristo é a verdade basilar do cristianismo. Cristo verdadeiramente ressuscitou pelo poder de Deus, trazendo os estigmas da cruz. Não se trata de nenhum duende ou fantasma, e nem de uma mera força de energia, ou mesmo de um corpo revivido, como o de Lázaro, que voltou a morrer. A presença de Jesus ressuscitado não é um delírio dos apóstolos. Pois, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé; 1 Coríntios 15:14.
A cruz e a ressurreição estão inseparavelmente vinculadas. A cruz é tão essencial à ressurreição quanto esta àquela. Mas, sem a ressurreição, esta seria simplesmente a cruz do martírio. O sinal da vitória está na luz da ressurreição, diz G Aulén. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. 1 Coríntios 15:17.
Cristo Jesus foi crucificado em fraqueza, mas Jesus Cristo ressuscitou em poder. A alavanca poderosa que movimenta a experiência da salvação é o poder da ressurreição. A morte de Cristo na cruz em fraqueza foi responsável pela justificação dos nossos pecados. O poder da sua fraqueza garante a expiação do transgressor, pois a sua humilhação favorece a anistia da culpa. Contudo, é o poder da sua ressurreição que abona a salvação do pecador. Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Romanos 10:9.
A base do perdão está na morte, mas a base da salvação está na vida. Nós não somos salvos pela morte de Cristo Jesus, ainda que essa morte seja fundamental para a nossa salvação, pois não há ressurreição sem morte. A verdadeira salvação é uma permuta de vida. Perdemos a vida de Adão na cruz com Cristo e ganhamos a nova vida na ressurreição de Cristo. E estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, —pela graça sois salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; Efésios 2:5-6.
Ainda que a ressurreição seja um absurdo aos olhos do entendimento humano, ela é a grande manifestação do poder de Deus para a salvação de qualquer pecador. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé; para o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte; para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos. Filipenses 3:8-11.
O evangelho não começa com o cadáver do seu Deus, nem termina com os restos mortais dos seus fieis. Há vida em abundância conquistando o domínio do pecado e da morte. A ressurreição de Jesus Cristo é tão poderosa que todo aquele que nele crê não pode ficar refém da morte. Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente. Crês isto? João 11:25-26.

Solo Deo Glória

NA UNIVERSIDADE DO CONTENTAMENTO

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 De todas as disciplinas educativas nesse universo da experiência, a mais difícil de todas é a que trata do contentamento. Nada pode ser mais custoso do que uma vida pautada pela autêntica satisfação. De um modo geral, os alunos na escola da vida são reprovados nessa matéria, quando demonstram com desgosto imenso suas lamúrias diante das realidades da existência. Muito pouca gente consegue classificação nesse assunto. O apóstolo Paulo foi um dos raros discípulos aplicados dessa Universidade do Contentamento, pois realmente aprendeu a viver satisfeito. Quando ele escreveu esta carta, encontrava-se preso em Roma sob condições extremamente hostis. Paulo sofreu nessa vida as mais duras perseguições e passou por momentos de privações humilhantes, sem jamais demonstrar uma atitude de desprazer. A sua ênfase nesta carta aos filipenses é pura alegria.
Ser aprovado em matéria de contentamento não é um assunto que estimule as multidões, mas uma mente satisfeita é uma festança que anima muita gente tediosa. Como é bom conviver com uma pessoa que sabe celebrar a vida! A verdadeira satisfação resplandece no escuro, por isso Paulo, num cárcere tenebroso em Filipos, era mais exultante do que Adão no paraíso dos prazeres. Por volta da meia-noite, Paulo e Silas oravam e cantavam louvores a Deus, e os demais companheiros de prisão escutavam. Atos 16:25.
Aquele que se satisfaz com menos, tem um patrimônio muito grande para garantir a sua felicidade duradoura. Alguém disse que o contentamento consiste não em acrescentar mais combustível, mas em diminuir o fogo; não em multiplicar a riqueza, mas em diminuir os desejos. Aquele que se encontra satisfeito com menos coisas, é bem mais feliz do que aquele que vive ambicionando ansiosamente cada vez mais, buscando avultar o muito que já possui. A verdadeira riqueza não consiste em ter muitos bens, mas em viver bem com menos riqueza. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. 1 Timóteo 6:8.   Viver contente em todas as situações é uma bênção da pedagogia celestial. A escola da graça de Deus é muito prática e aqueles que aprendem a viver contentes são treinados na experiência diária. Deus nunca ensina um conteúdo espiritual aos seus filhos de maneira teórica. A educação dos santos é exercida no traquejo efetivo da realidade cotidiana. No reino de Deus não há contentamento sem fornalhas aquecidas nem serrotes amolados.

Mas, o contentamento não significa acomodação. A obra da graça de Deus não propõe a estagnação das pessoas nem o conformismo da iniciativa. Graça indolente é uma contradição de termos. O contentamento do coração nada tem a ver com esse desinteresse anêmico ou a resignação apática de gente lerda. O espírito satisfeito pela graça de Deus não quer dizer um espírito indiferente ao crescimento de uma vida sadia. Toda pessoa alcançada pelo evangelho de Cristo torna-se diligente em sua missão nesse mundo.

Paulo era um homem contente, mas não um homem conformado com a fatalidade. Ele era dirigido pela soberania graciosa de Deus e não pela estupidez desvairada de um destino inevitável. Sua visão dos acontecimentos era configurada pela suprema vontade Deus e nunca pelos meros privilégios da ventura ou pelo acaso vulgar e azarento da sina; por isso mesmo, ele regozijava tanto nos aplausos do êxito, como no luto da calamidade.

A pessoa contente não se encontra aprisionada pelo conformismo de uma conjuntura rígida, nem entorpecida pelo borrifar ilusório da aspiração. Contente é a descrição daquele que olhando para dentro de si mesmo, vê a fonte de sua satisfação na suficiência de Cristo, que reside em seu interior, de modo que não precisa depender de substitutos externos.

O apóstolo Paulo diz neste texto que estamos enfocando que ele aprendeu a viver contente. Isso significa que houve um tempo que ele não era tão contente assim. A palavra, o grego, tem um sentido de aprender por experiência, logo, o seu contentamento espiritual não era algo que tivesse experimentado desde a sua conversão. Ele precisou passar por alguns testes severos, suportando situações críticas a fim de aprender as lições do contentamento. Ninguém aprende a viver contente em qualquer circunstância, sem passar pelos lances mais contrastantes e absurdos, tanto na fartura como na penúria.

Mas esse aluno incansável do contentamento torna-se, além disso, um dos mais eficientes mestres desse tema. Ele não foi só um discípulo exemplar nessa Universidade, como também foi o seu mais ilustre professor. Em uma de suas aulas sobre o assunto, Paulo mostra que a piedade cristã é altamente rentável, desde que esteja associada ao contentamento. De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento. 1 Timóteo 6:6.

A vida plena de sentido e repleta de contentamento é uma vida progressiva e produtiva. Mas o velho instrutor do contentamento nos mostra em sua didática que há três grandes princípios que envolvem a realização de uma incumbência feita a contento. Não basta ser atarefado e cumpridor do dever, é preciso fazer as coisas com a atitude correta.

Primeiro: a pessoa contente executa o seu serviço sob o fundamento da glória de Deus. Não há nada pequeno em Deus e não há glória capaz de engrandecê-lo. Quando alguém busca o seu próprio resplendor naquilo que faz, corre o risco de se envaidecer com sua realização, se houver sucesso, e de se deprimir, se houver fracasso. Ninguém pode ficar contente entre o brilho afetado do êxito e a sombra cruel do insucesso. Sendo assim, a grande alternativa do espírito jubiloso é executar todas as coisas para a glória de Deus. Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus. 1 Coríntios 10:31. Aqui não há o perigo da desolação.
Segundo: a senda de uma pessoa feliz é demarcada pelo perímetro ilimitado do amor. O dever leva-nos a fazer as coisas com esmero, mas o amor leva-nos a fazê-las com a excelência do entusiasmo. A pessoa contente vai muito além do capricho, quando se dedica com afeto àquilo que realiza. Lawrence P. Jacks disse: ninguém saberá o que você quer dizer quando fala que Deus é amor se você não agir segundo o que fala. O cristão contente é aquele que se contenta fazendo o seu trabalho com amor. Ninguém pode ser mais feliz do que aquele que procede dentro da bitola incondicional do amor. Todos os vossos atos sejam feitos com amor. 1 Coríntios 16:14. Aqui não há a ameaça da amargura.
Terceiro: o outro segredo do contentamento cristão é a atividade destituída de reclamações e discórdias. Há muita gente que faz muita coisa, mas o que faz vem contaminado com o veneno das queixas. As lamentações roubam a alegria no cumprimento da missão e as competições deixam vazar o bom humor em qualquer empreitada. Com certeza, o maldizente é um participante efetivo no coral do inferno, pois nada se assemelha tanto à musica do abismo como o tom torturante da lamúria. Fazei tudo sem murmurações nem contendas, para que vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo. Filipenses 2:14-15. Aqui não há a tortura do aborrecimento.
Os filhos de Deus são uma espécie rara de gente alcançada pela graça, que cursa a Universidade do Contentamento, aprendendo a viver contente em qualquer ambiente e sob quaisquer condições. Como afirmou Albert Barnes, o maior sofredor que vive neste mundo de amor redentor e tem diante de si a oferta do céu, tem motivos de gratidão. Se você faz parte dessa turma, só lhe resta uma opção: Viver aprendendo a contentar-se em toda e qualquer eventualidade. Seja a vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as coisas que tendes; porque ele tem dito: de maneira alguma de deixarei, nunca jamais de abandonarei. Hebreus 13:5.
Todos aqueles em que a cruz de Cristo deixou suas impressões no caráter, sempre vão transbordar seu contentamento, aprendido através das marcas dos cravos esculpidas pela fé. Ninguém pode viver mais contente do que os co-crucificados e regenerados na ressurreição pela graça em Cristo. Aqueles que estão satisfeitos com a suficiência de Cristo, embora tenham tribulações, tropeços e transtornos não deixam de expressar o seu contentamento por terem sido aceitos cabalmente pela graça do evangelho. Um cristão que não aprende a contentar-se em todas as ocasiões, acaba injuriando o seu Salvador e difamando a sua salvação. Por isso contentai-vos... Regozijai-vos sempre. 1 Tessalonicenses 5:16.


Solo Deo Glória

CRISTO, O LOGOS ETERNO



O evangelho de João não se inicia pelo nascimento do nosso Senhor neste mundo, mas sim, pela Sua existência antes do princípio de tudo que tem um princípio. O livro de Gênesis revela-nos a história do mundo no tempo; João revela-nos a história do Verbo, ou seja, da Palavra que existia na Eternidade, antes de o mundo ser feito. Aqui o apóstolo João nos apresenta a glória da Pessoa de Cristo antes que o mundo existisse. O Senhor Jesus é a própria Palavra de Deus, Ele é a verdadeira expressão de Deus, é uma expressão que fala de sua pré-existência eterna.
O Verbo estava com Deus.
Ele está com Deus e Ele é o próprio Deus, isto significa que o Verbo é uma pessoa. Nos é dito que Ele era Deus: Deus na Sua existência eterna, na Sua natureza divina, na Sua Pessoa distinta. Ele é a Palavra de Deus, a expressão exata do seu Ser e do Seu poder. Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas. Hebreus 1:3.
É por Ele que Deus opera e Se revela. Ele é também o Filho de Deus, e quem O viu também viu o Pai. Disse-lhe Jesus: Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai? João 14:9. Tudo o que sabemos sobre Deus é através do conhecimento de Cristo Jesus. O nosso Senhor Jesus, O Filho de Deus é a plenitude da divindade. Porquanto, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade. Também, nele, estais aperfeiçoados. Ele é o cabeça de todo principado e potestade. Colossenses 2:9-10. Toda a plenitude da divindade está em Cristo. Ele é a plenitude de Deus. Tudo o que se possa pensar de Deus está em Cristo. Ele é a imagem do Deus invisível.
Embora nascido neste mundo por operação de Deus, pelo Espírito Santo, a Sua entrada misteriosa em carne pura e sem mácula, formada pelo poder do Altíssimo no ventre da virgem, é o início de uma trajetória que se seguiria em morte, ressureição e glorificação. Evidentemente, grande é o mistério da piedade: Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em espírito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória. 1 Timóteo 3:16.
Ele é Filho de Deus, mas isto tem lugar no tempo, quando a Criação já é a cena da manifestação dos caminhos e dos desígnios de Deus. Mas o nome de Filho é também o nome que exprime a relação própria da Sua gloriosa Pessoa com o Pai, antes que o mundo existisse. Eu te glorifiquei na terra, consumando a obra que me confiaste para fazer; e, agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo. João 17:4-5. O Pai glorificado na terra pelo Filho e o Filho glorificado com o Pai em Cima, no Céu.
Em seguida temos: Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez. João 1:3. Toda a criação foi feita por Ele. Foi na Pessoa do Filho que Deus atuou quando criou todas as coisas quer nos céus quer na terra, visíveis e invisíveis, pelo Seu poder.
Tudo o que é poderoso e elevado é obra da Sua mão; tudo foi criado por Ele e para Ele. Pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Colossenses 1:16. Este versículo diz que todas as coisas foram criadas nele porque Ele é o arquiteto. Ele projetou e criou todas as coisas. Ele é o construtor, o engenheiro, o proprietário e o herdeiro de todas as coisas.
E o verbo se fez carne.
Aqui temos a relação do Verbo com o homem quanto à Sua identificação. Ele foi Aquele que nos resgatou, que Se fez homem, um de nós quanto à natureza humana para realizar a nossa redenção. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai. João 1:14. A manifestação do Verbo em carne neste mundo, na Pessoa de Jesus Cristo, consumou o propósito de Deus revelado pelos profetas. Filipe encontrou a Natanael e disse-lhe: Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei, e a quem se referiram os profetas: Jesus, o Nazareno, filho de José. João 1:45.
Em Jesus, o Verbo feito carne vivendo entre nós, estava cheio de graça e de verdade, e desta plenitude todos nós recebemos. Porque todos nós temos recebido da sua plenitude e graça sobre graça. João 1:16. Graça sobre graça, é um favor imerecido de Deus em abundância, fruto do Seu amor por nós, graças estas que são acumuladas umas sobre as outras. A verdade brilha, e a graça nos é dada.
O Verbo se fez carne, e habitou entre nós na plenitude da graça e da verdade. A verdadeira relação de todas as coisas com Deus nos foi revelada. A presença de Cristo neste mundo nos revela tudo. O que Deus é e o que somos. A verdade em Cristo mostrou a nossa miserabilidade e a graça nos revelou a bondade de Deus.
O Verbo de Deus tornou-se carne, o Filho encarnado. O mistério de Deus torna-se conhecido, o véu é retirado porque Cristo o nosso Senhor é o mistério de Deus. Que mistério é este? Cristo em vós. O mistério que estivera oculto dos séculos e das gerações; agora, todavia, se manifestou aos seus santos; aos quais Deus quis dar a conhecer qual seja a riqueza da glória deste mistério entre os gentios, isto é, Cristo em vós, a esperança da glória. Colossenses 1:26-27.
Para que Ele se tornasse homem, teve que esvaziar a Si mesmo. Ele não se esvaziou de Sua divindade; Ele esvaziou-se de toda a glória, com a finalidade de assumir a forma de servo, tornando-se em semelhança de homem. E reconhecido em figura humana, Ele, além disso, humilhou-se a Si mesmo, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Filipenses 2:6-7-8.
Já vimos a maneira como o Senhor Jesus Cristo foi concebido e, ao longo do curso da Sua vida aqui na terra, encontramos exemplos e mais exemplos da mesma imaculada pureza. Passou quarenta dias no deserto, sendo tentado pelo diabo, mas nada em Sua natureza respondeu às vis sugestões do tentador. Podia tocar os leprosos sem ser contaminado. Podia tocar o esquife de um defunto sem contrair o fedor da morte. Podia passar incólume pela atmosfera mais contaminada. Era, quanto à Sua humanidade, como um raio de sol que vinha da fonte de luz, o qual pode passar, sem ser atingido, pelo ambiente de maior contaminação. Foi perfeitamente único em natureza, caráter e constituição. Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado. Hebreus 4:15
Nós tínhamos necessidade não somente de um Cristo encarnado, mas de um Cristo crucificado e ressuscitado. Na verdade, Ele se fez carne para ser crucificado, mas é por Sua morte e ressurreição que a Sua encarnação veio a ser eficaz para nós. Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição, sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos. Romanos 6:5-6.
A graça infinita de Deus é manifestada no fato maravilhoso que pecadores, culpados e dignos do inferno, possam ser chamados amigos do Filho de Deus. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer. João 15:15.
A preeminência do Filho não podia ser de outra maneira. Ele é Cabeça sobre todas as coisas. Não existe nada neste universo que não lhe pertença. Toda família nos céus e na terra deve alinhar-se sob a poderosa mão do nosso Senhor Jesus Cristo e confessá-Lo como Senhor. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai. Filipenses 2:9-10-11.
A Sua redenção foi completa, final e eterna. Nele fomos redimidos e selados por uma salvação eterna. Não por meio de sangue de bodes e de bezerros, mas pelo seu próprio sangue, entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção. Hebreus 9:12.


Solo Deo Glória